terça-feira, 15 de novembro de 2016

bença, vó!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

boa tarde, vó! bença! eu num ia te escrever porque num queria dizer que tá foda sem a senhora, sem seu jeito debochado de ser - zomba de mim daí do céu, tá? eu queria era pegar um ônibus, ficar o dia inteiro na estrada, ver prédio virar mato e cada curva ser confirmação de que tô chegando em casa - que é sinônimo do seu abraço, vó. queria subir a escada, abraçar minha mãe enquanto ela fala "vai lá ver sua vó", chegar na porta do quarto, te ver forçar a vista, abrir esse riso bonito e dizer "ó, neneca chegou". sua neneca tá aqui, vó. sua neneca voltou como disse que voltaria e vou chegar pra sempre pra senhora, vó. não importa tempo que passe e saudade que me sufoque por 167km. vou sempre subir a escada, largar a mochila e te buscar, vó. eu disse que num ia te escrever, mas escrevi. escrevi porque sempre achei sua letra linda e, mesmo cê dizendo que nunca gostou de estudar, sempre sentiu orgulho de tudo que fiz - por isso te marquei na pele, vó. estudo pensando na senhora, no amor que tenho pelos bicho e que cê num entende, mas ouve sempre com muita graça meus causos e pergunta sempre com muita curiosidade se bicho e gente é igual. sua sabedoria era da vida, vó. vida que vai ser sempre o que vai me lembrar do'cê e onde, sem gostar de estudar, a senhora foi professora. ensinou pra mim, minha mãe e meu irmão, que viver é o mais simples e nobre - sem contar as receitas à mão que embalam meu fogão e sua dúvida de como fiz aquilo sem leite e ovos. coração nobre que a senhora tinha, vó. tão nobre que foi sempre o que te adoeceu. sentia demais. amava demais. me protegia quando eu não merecia e, foi a primeira a entender meu jeito de ser e de me vestir, mesmo que ainda não goste da minha calça rasgada - eu não joguei ela fora e nem vou, vó... logo rasgo outra. tudo me lembra a senhora: as curvas, o café, as receitas, minhas aulas, meus gatos, a calça rasgada, a vida. vida bonita a da senhora e benção dos deuses que tenho de ser sua "niquinha". pra sempre, vó. pra sempre volto pra senhora, te peço a benção, te levo um café, te marquei na pele, te carrego no coração, te tenho na alma, te vivo e te amo, vó.

(fico de férias em dezembro, chego no final de semana, vó. bença!)



Angélica Maria




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