quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Hidrografia

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Eu já chorei muito, moço. Fiz de mim cachoeira por um bom tempo e derramei saudade por aí. É que choveu ocê no meu travesseiro e no meu chuveiro. Pra falar a verdade, moço, tem dias que são frios e cheios de neblina. Garoa. Dói ter mergulhado tão fundo em alguém tão raso. Na maioria dos dias oceano: ocê amo. No fundo, ainda sofrido, sou rio. Vez ou outra: sorrio. É que aprendi que tudo passa, assim como as águas. Não minto, ainda é difícil lidar com a correnteza me arrastando sempre procê, mas, ô seu moço, cê me conhece bem; cê sabe que sou quase sempre mar com lua cheia: maré alta, preamar. Só sei de amar. No meio da tempestade vou sendo enchente e aceitando essa gente que quer me dar de beber. Vou sendo nascente, meio água doce e meio água do mar. Vou sendo o que posso ser, não sei onde vou desaguar, onde vou parar... mas vou continuar fluindo. Indo.


Angélica Maria

2 comentários:

  1. Que delícia de texto, sinto falta de textos que tenham essa leveza e inspiração no contínuo amar e na superação de certos aspectos. Eu escrevia bastante assim, mas faz tempo que minha mente esta em tormenta.
    www.rumorandhorror.blogspot.com

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  2. Que texto mais ♥ Adorei! E parabéns pelo blog, gostei bastante.

    Beijos, quebrarosilencio.blogspot.com

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