domingo, 13 de setembro de 2015

Carta Aberta

domingo, 13 de setembro de 2015

Oi, como cê tá? Já faz um tempo, não é? Apesar de ainda não entender bem onde nos perdemos, entendo que as coisas mudaram; é que nessa bagunça toda, quando te perco é quando te encontro: em mim. E eu, ainda me encontro no’cê?

É complicado; cê sabe que pra mim tudo tem que ser intenso, que sempre tenho que me jogar de cabeça. Verdade é que me joguei sem pensar na decisão que nos trouxe até aqui – assim como me joguei nos teus braços em Junho, em Outubro, em Novembro, naquela calçada durante uma festinha de aniversário, naquele banco da praça da feirinha e tantos outros lugares que guardam segredos nossos e que se eu for botar aqui dura mais que esse carinho que tenho guardado pro’cê – e deixando bem claro como a luz do dia: é imensidão.

Te escrevo assim, moço... abertamente. Mesmo que cê não leia, mas é como cê me disse: “Se isso te conforta”. Conforta sim, moço. Se não posso ler um “Bom dia” teu, fantasio. É que te ler é te sentir nessa distância toda que sempre esteve entre nós; e hoje, não te ler é saudade. Escrevo sobre o amor; e sobre a falta dele. Faltou amor, moço? Acho que o que faltou foi botar o sentido no peito em cada mensagem, áudio, ligação, encontro e despedida.

Te escrevo por tudo que não é segredo – cê me desvendou por inteiro. Te escrevo por não poder ser mais surpresa, o inesperado. Te escrevo por tudo o que virou rotina – mas que cê não percebeu que mais bonito era o que ficava nos detalhes: no jeito como cê me olhava quando eu conversava com alguém, no jeito como eu ria quando cê me fazia cócegas, na rapidez como eu trocava de lado pra caminhar segurando na mão que cê gostava, nas piadas que cê criava sobre meu esmalte preto descascado, nas quinhentas-mil-vezes que cê me perguntava se eu tinha almoçado direito, nas quinhentas-mil-vezes que eu te pedia pra ir ao médico por causa dessa gripe que não passa e nas eticéteras que ficam. E se tem algo que não passa – só fica  é nostalgia do’cê.

A luz tá acesa, a tv tá ligada, a porta tá aberta. Se precisar te desenho um mapa – já que cê sempre foi meio bobo pra perceber que eu sempre te quis de corpo, alma e coração. E olha bem pra esse muro que cê levanta. Os dias passam rápido e brincando se foram noventa-e-tantos – em dias quentes e frios – em verso pro’cê saber:

“É uma noite longa
Pra uma vida curta”

E se te busco, cê desvia: logo eu, que sempre fugia. Cê não precisa procurar mais: eu tô aqui, moço – como sempre estive mesmo que cê não tenha percebido:

“Tô te esperando
Vê se não vai demorar”

Assim, de carta aberta – e peito aberto  pra todo mundo ver que sou feita de detalhes teus e que cê é feito de detalhes meus (por mais que esconda ou negue), e saber que cê sempre mora no olhar meu:

Eu.


Angélica Maria

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Hidrografia

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Eu já chorei muito, moço. Fiz de mim cachoeira por um bom tempo e derramei saudade por aí. É que choveu ocê no meu travesseiro e no meu chuveiro. Pra falar a verdade, moço, tem dias que são frios e cheios de neblina. Garoa. Dói ter mergulhado tão fundo em alguém tão raso. Na maioria dos dias oceano: ocê amo. No fundo, ainda sofrido, sou rio. Vez ou outra: sorrio. É que aprendi que tudo passa, assim como as águas. Não minto, ainda é difícil lidar com a correnteza me arrastando sempre procê, mas, ô seu moço, cê me conhece bem; cê sabe que sou quase sempre mar com lua cheia: maré alta, preamar. Só sei de amar. No meio da tempestade vou sendo enchente e aceitando essa gente que quer me dar de beber. Vou sendo nascente, meio água doce e meio água do mar. Vou sendo o que posso ser, não sei onde vou desaguar, onde vou parar... mas vou continuar fluindo. Indo.


Angélica Maria
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